Publicado o livro Presidencialismo de Colisão
A compreensão aprofundada da dinâmica do orçamento público no Brasil, desde a proclamação da República até a configuração político-institucional contemporânea, representa um tema central para a análise crítica da governabilidade e dos desafios democráticos que o país enfrenta.
O livro “Presidencialismo de Colisão: como a atuação do Centrão afeta a governabilidade e ameaça a democracia brasileira” oferece uma análise sobre as disputas que envolvem o controle dos recursos públicos, destacando especialmente o papel do chamado Centrão, um bloco político heterogêneo, desprovido de identidade ideológica fixa, mas que exerce influência decisiva nas negociações orçamentárias e, consequentemente, na sustentação do governo federal.
A importância da temática central do livro ultrapassa a mera esfera fiscal, pois está profundamente entrelaçada com as estruturas do sistema político brasileiro. As eleições, a formação das coalizões governamentais e o funcionamento das instituições públicas dialogam diretamente com a distribuição dos recursos orçamentários. A trajetória histórica reconstruída nesta obra revela que o orçamento público, longe de ser um instrumento técnico neutro, constitui uma arena estratégica para a definição e consolidação do poder político, evidenciando tensões e convergências entre interesses partidários, regionais e corporativos. Tal cenário tem implicações profundas para a democracia brasileira, afetando tanto a qualidade da representação política quanto a efetividade das políticas públicas e o controle social.
Desde a proclamação da República, a disputa pelo orçamento se configurou como um elemento fundamental na correlação de forças entre os diversos atores políticos e administrativos no Brasil. Compreender essas disputas exige uma reflexão que ultrapasse os aspectos legais e institucionais que regem o processo orçamentário no Brasil, incorporando também as práticas políticas, os arranjos informais e as negociações que ocorrem nos bastidores do Congresso Nacional, especialmente nas relações entre Executivo e Legislativo. Essa perspectiva permite desvendar as lógicas de funcionamento do Centrão, cuja centralidade decorre de sua capacidade de articular apoios diversos, mobilizar recursos orçamentários e negociar espaços de poder de forma pragmática e flexível.
O recorte temporal adotado, que abarca desde o período imperial, adentrando o período republicano, até o arranjo político atual, proporciona uma visão ampla e comparativa, evidenciando continuidades e rupturas ao longo do tempo. Essa perspectiva histórica é fundamental para compreender as transformações institucionais, econômicas e políticas que moldaram o controle orçamentário, incluindo processos como a centralização fiscal, a evolução do presidencialismo de coalizão, as reformas administrativas e os impactos da globalização econômica.
Três pilares orientam essa obra. Primeiro, as coalizões são apresentadas como método de governança: sua lógica de formação, manutenção e recalibração, operando muitas vezes fora de moldes estritamente partidários, para sustentar a agenda governamental. Depois, emendas parlamentares e orçamento aparecem como instrumentos centrais de barganha: a alocação de recursos, as regras orçamentárias e as oportunidades de distribuição de recursos que definem quem ganha e quem perde em cada ciclo político. E, por fim, a evolução institucional diante das mudanças políticas e econômicas, incluindo reformas, ajustes no arcabouço de gastos e (re)desenhos institucionais que ampliam ou restringem a capacidade de barganha do Centrão.
Em particular, o foco no Centrão lança luz sobre um ator político frequentemente subestimado ou tratado superficialmente, tanto pela literatura especializada como pelo próprio cidadão e eleitor, apesar de seu papel decisivo na configuração das maiorias legislativas e na viabilização dos governos no Congresso. A análise detalhada do Centrão como arranjo político revela como suas estratégias de negociação orçamentária influenciam a estabilidade governamental, a formulação das políticas públicas e o equilíbrio entre os poderes constituídos.
Essa abordagem é, portanto, essencial para compreender os desafios contemporâneos da governabilidade no Brasil, especialmente em contextos de crise política e fragmentação partidária. O livro demonstra como a centralidade das negociações orçamentárias no âmbito do Centrão pode tanto refletir quanto reforçar práticas políticas que desafiam os princípios da transparência, da accountability e da representação substantiva. A disputa pelo controle dos recursos públicos revela uma dimensão crítica do funcionamento da democracia brasileira, marcada por tensões entre a necessidade de governabilidade e o imperativo da legitimidade democrática. Ao problematizar essa relação, a obra oferece subsídios teóricos e empíricos para a reflexão sobre a qualidade democrática e os caminhos para seu aprimoramento.
Metodologicamente, esta obra se ampara na combinação da análise de documentos públicos, em reportagens de veículos de comunicação de referência e, também, na revisão teórica e histórica de pesquisadores que tenham relação com o tema principal, que é o presidencialismo de coalizão, e as variáveis que levaram aos questionamentos e comparações deste modelo com o presidencialismo de concertação e o presidencialismo de colisão.
A atenção dedicada às nuances políticas e institucionais - como o fisiologismo, o pragmatismo, o clientelismo, a coesão, a cooptação, o lobby, a governabilidade, a accountability, a cidadania e a participação - revela o caráter multifacetado e complexo da disputa orçamentária, abrindo espaço para debates múltiplos sobre o papel das instituições, as estratégias dos agentes políticos e as repercussões sociais.
A contribuição deste livro preenche uma lacuna relevante na literatura brasileira, que frequentemente aborda o orçamento público sob perspectivas fragmentadas ou técnicas, sem captar adequadamente as dimensões políticas profundas subjacentes. Ao iluminar como o controle do orçamento está intrinsecamente ligado à estruturação do poder e à dinâmica das coalizões, sobretudo em ambientes presidencialistas complexos como o brasileiro, a obra não apenas enriquece o debate acadêmico, mas também fornece elementos para a formulação de políticas e reformas que visem maior efetividade e legitimidade no uso dos recursos públicos.
Por fim, ao engajar-se com essa temática, a pesquisa dialoga com questões contemporâneas cruciais, como a crise da representação, o enfraquecimento das instituições democráticas, a necessidade de maior transparência na gestão pública e o desenvolvimento de uma cultura cívica e participativa, para além daquelas que se restringem aos anos eleitorais. Dessa forma, o livro eleva a discussão acadêmica sobre o orçamento público para além de uma análise meramente técnica, promovendo uma visão crítica e contextualizada que pode auxiliar na compreensão dos desafios e das possibilidades para a democracia brasileira atual.
Em síntese, o livro “Presidencialismo de Colisão: como a atuação do Centrão afeta a governabilidade e ameaça a democracia brasileira” representa uma contribuição reflexiva e crítica significativa para o estudo do orçamento público no Brasil, ao destacar o papel do Centrão como protagonista das disputas pelo controle dos recursos públicos e suas repercussões para a governabilidade democrática. A leitura deste livro é essencial para quem deseja não apenas entender, mas também contribuir para a transformação das instituições políticas brasileiras, oferecendo uma chave interpretativa indispensável para o debate acadêmico e a formulação de políticas públicas mais eficazes e democráticas.
Para comprar o livro, acesse:

